mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from Cambodia
  • on 2010.08.31

Quando os pedintes falam a verdade

Girl begging
Foto de Daniel Grosvenor

.

Quando o menino percebeu que a gente não ia mesmo comprar um dos seus livros piratas, ele nos pediu comida. Ele parecia ter uns 12 anos e ainda estava aperfeiçoando suas técnicas de vendas.

Depois de quatro dias em Siem Reap (além de uma semana em Sihanoukville), eu me acostumei a dizer “não” às crianças e adultos vendendo souvenirs e pedindo esmolas. Eu li artigos suficientes para saber que, na maioria das vezes, dar dinheiro mais atrapalha do que ajuda.

Dar dinheiro é um gesto que os incentiva a continuar trabalhando ou pedindo dinheiro, ao invés de frequentar uma escola.

Os adultos e crianças acabam ficando dependentes dos turistas para sobreviver.

Dar dinheiro atrapalha as ONG’s que estão tentando manter as crianças fora dos perigos das ruas.

Sem querer, você encoraja pais irresponsáveis a ficar em casa, muitas vezes bebendo, enquanto a criança passa o dia todo trabalhando.

E pior de tudo: as crianças têm sua infância roubada.

Minha namorada Bianca, no entanto, deixou sua compaixão falar mais alto do que a razão. Quando o menino disse que estava com fome, ela ofereceu comprar um almoço pra ele, e o convidou para se juntar à nossa mesa.

Eu quis protestar, mas era tarde demais. Ela já estava olhando o menu junto com o menino. Tudo o que pude fazer foi limitar a quantia: Não mais que $1.50, eu disse. Quantia suficiente para uma generosa porção de arroz frito com carne.

Enquanto ele comia, a Bia começou a conversar com o menino sobre a sua vida. Eu abracei este gesto. Muito mais do que só dar uma esmola, essa seria uma oportunidade de construir empatia mútua, de saber um pouco mais sobre as pessoas que infelizmente com o passar dos dias acabamos vendo como incômodos.

Ele disse que precisava de dinheiro para comprar leite em pó para sua irmãzinha. Isso já me deixou cabreiro, já que eu já tinha ouvido essa história de outros pedintes, incluindo uma mulher carregando seu bebê.

Viajando no Camboja, você aprende rápido que seu povo é genial na imitação, e péssimo na inovação. Se alguma técnica funciona pra uma pessoa ou se um produto vende bem, você pode ter certeza que muita gente vai imitar.

Quer uma prova? É só você comparar o menu de três restaurante quaisquer em Siem Reap. Escute as propostas dos vendedores de lembrancinhas. Repare como em cada esquina você encontra mais um “Dr. Fish Massage”, um tanque cheio de peixinhos que comem a pele morta das suas pernas e pés. Metade deles oferece uma cerveja grátis com o serviço de 2 dólares.

O menino continuou, dizendo que seu pai perdeu as pernas num campo minado. Sua história começava a parecer um pouco trágica demais. Ao invés de empatia, eu comecei a desconfiar. O menino estava combinando vários elementos tristes de uma maneira um pouco forçada. Como resultado, eu passei a desconfiar de cada uma das suas palavras.

E o que eu temia aconteceu. Dois outros meninos, que obviamente notaram a nossa caridade, entraram no restaurante. Um deles pediu um prato de arroz frito enquanto o outro apenas observava. Esses meninos geralmente desistem depois de ouvir uns 5 “não, sinto muito”, mas esse aí, vários minutos depois, não se mexia.

Eu tive que ser bruto com o menino, e isso me deixou arrasado. Eu tive que olhar firme dentro dos seus olhos e dizer “Eu disse não. Eu não vou dizer de novo”.

Ao deixar a mesa, os olhos do menino me seguiram cheios de ódio. Um olhar como eu nunca tinha visto nesse país de pessoas dóceis e cerimoniosas.

“Seu pão duro”, ele lançou.

Isso é algo difícil de se ouvir, especialmente após ter comprado comida para um dos seus colegas. Mas a frase expôs a lógica dos pedintes do terceiro mundo, geralmente ocultada atrás de tantos “Tenha um bom dia” e “Obrigado, senhor”.

E a lógica é essa: se você tem dinheiro suficiente para viajar de avião até o meu país, você tem dinheiro para me comprar comida. Você tem dinheiro para comprar comida para todos nós. Então por que você não compra?

O que eles não sabem é que eu precisei trabalhar duro por três anos para economizar dinheiro para essa viagem. Que eu escolhi esse país precisamente porque ele é barato – e eu não sou rico. E que eu estou ajudando apenas com a minha presença e gastos diários, injetando dinheiro na economia e criando empregos na área de turismo.

O garoto estava apenas dizendo o que a maioria dos pedintes pensa, seja verdade ou não.

E essa é uma verdade dura de engolir, mas necessária.

Comments

11 people commented so far
  1. I’ve still not figured out which is hardest, giving (in) or not giving to beggars. I prefer to encourage a business relationship by buying something I would use, such as tissues, even if I have to hand out the commodity in the first place. A comfortable delusion on my part I’m sure, but you can’t say no all the time without feeling like a monster.

    by Shane on 2010.09.01
  2. Shane, I disagree that you can’t say no all the time without feeling like a monster. Make a contribution to a charity that helps out street people/street children. Then you can politely say “no” every single time with a completely clean conscience. That’s what I do.

    What seems inhuman to me is ignoring or pretending not to notice beggars. When I pass them in the street I always make a point to look them in the eye and smile, and then, if they ask me for money, politely say “no, sorry”. I would feel guilty if I didn’t – it’s important to me that I acknowledge them as fellow human beings who deserve my respect and kindness.

    Thought-provoking post, RobRoc. Don’t you find Montreal provides us with better training for saying “no” to street beggars than most rich world cities do? I’ve grown so accustomed to turning down beggars while walking around Montreal, I have absolutely no problem doing the same thing in my travels.

    by Fairfax on 2010.09.01
  3. I’m with you on the respect to fellow human beings. Most, though certainly not all, child beggars are generally polite and if I’m sat down somewhere are happy to stick around and have a normal conversation or a bit of fun after I’ve refused them money.

    I don’t often give money for nothing to beggars now, for the reasons given at the beginning of the article but, clean conscience or not, it’s still not easy. Maybe I should move to Montreal (or back to London)?

    by Shane on 2010.09.01
  4. Saying ‘hello’ and smiling at beggars must take a good measure of compassion and persistence.

    There are beggars and sellers in Cambodia that sound like robots. When you try to engage them in conversation, they look confused and just repeat the same platitudes.

    So it’s easy to overlook their humanity because they also regard you as a walking dollar sign.

    by Roberto Rocha on 2010.09.04
  5. I loved the beggars in Cambodia, annoying as they were. At least they made an attempt to learn the language. I met kids who could count 1~10 in ten languages. It sucked when they wouldn’t leave you alone, but from their perspective, they’re making a ton of money. The average salary there is probably less than $5/day, and these kids can probably pull in $10~20, or more if they’re missing a limb. I saw a one-legged kid with a leg up on the rest of Cambodians. We watched from a bar as he would pour on the sob story for passing by western women, who would then hug him and nearly cry, but then give him money for his leg to grow back (?). That kid must be loaded.

    by mike on 2010.09.07
  6. After spending some time in Southeast Asia I figured out a way of dealing with begging kiddies that was satisfying to my soul and their brains. I’d teach them something.

    I used my background as an English teacher to create little games so kids could repeat parts of the body, counting, colors, names of things around them, etc. If they got it right, they got a high five.

    Kids surrounded me wherever I went, as I engaged them and asked them questions in Khmer, or Laotian, or Thai.

    I found this method better than rotting kid’s teeth with candy, or creating an air of ’stinginess.’ I just had fun with them. I offered my time, and hopefully, changed a few kids’ ideas of foreigners.

    by melissa on 2010.09.08
  7. Melissa, that really is a good way of dealing with them. Thanks for sharing.

    by Roberto Rocha on 2010.09.11
  8. Quando eu era garoto, certa feita li um cartaz num comércio do interior de sp que dizia : “Menino pidão, adulto ladrão”.
    Engraçado que aquilo ficou martelando na minha cabeça um tempão.
    Já esqueci muita coisa na minha vida, mas nunca esqueci aquela frase, e sempre que vejo algum garoto pedindo esmola eu lembro dela.

    by jose carlos saia on 2010.09.12
  9. Vou ser franco, países com muita miséria, que tem esse número de pedintes nas ruas ficam fora da minha wishlist. Eu fico mais tempo mal, pensando em injustiça do que curtindo.

    by Danilo Poveza on 2010.09.25
  10. É verdade que essas situações mexem com a gente, Dani. E a viagem deixa de ser só um “holiday” – o que é um objetivo mais do que legítimo pra sair de férias – e abre nossos olhos pras coisas que a gente preferia não saber que existe.
    Por outro lado, tem muuuita gente que deixa de ir ao RJ e ao Brasil por causa da violência. Eu ouço muito isso quando digo que sou do Brasil. Agora me diz: você não acha que ir ao Rio é uma experiência fantástica e imperdível APESAR do problemaço que é a violência? O Rio têm mais problemas do que metros quadrados, mas quanto mais eu viajo mais eu fico besta com o Rio.
    E eu fiquei besta (no bom sentido, e apesar de tudo) com o Camboja.

    by Bianca M. Saia on 2010.09.26
  11. I hardly drop remarks, however i did some searching and wound up here Child beggars in Cambodia | Mojotrotters.

    And I do have some questions for you if it’s allright.
    Is it just me or does it give the impression like some of the
    responses appear as if they are written by brain dead people?

    :-P And, if you are writing on other online social
    sites, I’d like to keep up with anything fresh you have to post.
    Could you make a list of every one of all your communal pages
    like your linkedin profile, Facebook page or twitter feed?

    My blog post :: cheap Carpets uk

    by cheap Carpets uk on 2014.09.20

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